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sábado, 7 de março de 2020

TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS


Nos textos que hoje lemos encontramos grande alimento para as nossas almas e matéria para uma meditação profunda.

Na primeira leitura, Deus dirigindo-se a Abrão — assim se chamava ele antes da missão que Deus lhe vai confiar — diz-lhe, de maneira que parece à primeira vista autoritária, mas não o é:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar.»
E aquela ordem que parecia autoritária transforma-se rapidamente em bênção, não só para Abrão, mas para «todas as nações da terra», porque o Senhor o afirma: «engrandecerei o teu nome e serás uma bênção».
Abrão não fez perguntas a Deus porque a sua fé era grande e, como está escrito, ele «partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.»
Aqui podemos questionar-nos: Que faria eu se recebesse a mesma ordem? Obedeceria imediatamente ou apresentaria reservas a Deus?
Não esqueçamos nunca o conselho que nos dá o salmista:
«Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem, para os que esperam na sua bondade.» (Sl. 32)
E ainda: Deus nunca nos pedirá algo que não possamos fazer, porque Ele conhece, melhor do que nós mesmos, os nossos limites.
Conheçamos e reconheçamos humildemente a nossa fraqueza, os nossos limites e com humildade, como tantas Santas e Santos de Deus, digamos nós também com o salmista:
«Venha sobre nós a vossa bondade, porque em Vós esperamos, Senhor.» (Sl. 32)
No Evangelho de hoje São Mateus (17, 1-9) fala-nos da transfiguração de Jesus, que teve como testemunhas oculares Pedro, Tiago e João, que Jesus «levou, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles».
E perante a estupefacção deles, «o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.»
Assim olhos humanos puderam contemplar o Filho de Deus na sua divindade, na pureza do seu espírito.
Mas Jesus não estava sozinho: apareceram a seu lado «Moisés e Elias a falar com Ele.»
O espanto dos discípulos, convidados para esta manifestação divina, foi cada vez mais maior e São Pedro que parecia o mais entusiasta e, segundo a sua maneira de ser expansiva falou para Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ele não disse quatro ou seis tendas, mas apenas “três”, para alojar as três personagens celestes enquanto eles continuariam, pode deduzir-se, em admiração diante de tão maravilho quadro. A ele pouco lhe importava de ficar ao relento ou mesmo à chuva, o que ele queria era que Jesus, Moisés e Elias continuassem aquele celeste colóquio começado entre Eles.
Mas a admiração dos três vai aumentar e com esta também o temor, quando «uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia : “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”».
Tão inesperada afirmação, vinda da nuvem estranha, fez que «ao ouvirem estas palavras, eles caíssem de rosto por terra e se assustassem muito.»
Se fecharmos os olhos e fizermos silêncio em nós, podemos imaginar esta cena tão particular e nos imaginar na situação de Pedro, Tiago e João, cheios de felicidade mas também de temor, não que Deus faça medo, mas por respeito à sua divina Majestade, porque foi a voz do Pai que eles ouviram, o Criador de todas as coisas “visíveis e invisíveis”.
Os três discípulos, como diz o evangelista, “caíram de rosto por terra”, tal foi o respeito que aquela voz lhes inspirou. Nós raramente pomos os joelhos em terra para adorar a Deus, porque muitas vezes nos consideramos como deuses e os deuses não dobram o joelho, o que nos impede de ouvir a voz de Jesus que carinhosamente nos diz:
«Levantai-vos e não temais».
Eles levantaram-se, ao ouvirem aquela voz que eles conheciam tão bem e, «erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.»
Irmãs e irmãos, devemos tomar uma decisão que nos guie nas nossas vidas: “erguer os olhos para Jesus”, implorar as suas bênçãos e graças, para que as nossas vidas sejam uma “transfiguração” contínua, uma subida ininterrupta à “montanha onde está Jesus”. Amem
Afonso Rocha

domingo, 12 de outubro de 2008

VESTIR O TRAJE NUPCIAL

Os que devem participar aoi festim...

Que traje nupcial é esse de que nos fala o Evangelho? Tal traje é certamente algo que só os bons possuem, os que devem participar no festim [...]. O traje serão os sacramentos? O baptismo? Sem o baptismo, ninguém chega até Deus, mas alguns recebem o baptismo e não chegam a Deus [...] Será o altar, ou o que se recebe no altar? Mas ao receber o Corpo do Senhor alguns comem e bebem a sua própria condenação (1Co 11,29). Então será o quê, esse traje? O jejum? Também os maus jejuam. Será frequentar a igreja? Também os maus vão à igreja como os outros [...].
O que é então esse traje nupcial? Diz-nos o apóstolo Paulo: «O objectivo desta recomendação é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera» (1Tm 1,5). Eis o traje nupcial. Não se trata de um amor qualquer, porque por vezes vemos homens desonestos amar outros [...], mas não vemos neles aquela caridade autêntica «que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera»; ora, esta caridade é precisamente o fato de núpcias.
«Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, diz o apóstolo Paulo, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine [...]. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou.» (1Co 13,1-2) [...] Poderia ter tudo isto, disse ele; sem Cristo, «nada sou» [...]. Como são inúteis os bens, se um só deles nos faltar! Se não tiver amor, bem posso ter distribuir todos os meus bens, confessar o nome de Cristo e entregar o meu corpo para ser queimado (1Co 13,3), que de nada me aproveita, pois posso agir assim por amor da glória [...]. «Se não tiver amor, de nada me aproveita.» Eis o traje nupcial. Examinai-vos a vós próprios: se o tiverdes, aproximai-vos confiantes do banquete do Senhor.


Santo Agostinho (345-430),
bispo de Hipona e doutor da Igreja - Sermão 90; PL 38, 559ss

sábado, 4 de outubro de 2008

BEM-AVENTURADOS

Bem-aventurados aqueles...

O Evangelista S. Mateus propõe-nos hoje uma das mais belas páginas dos Evangelhos: o “Sermão da montanha”, depois de nos ter dito que Jesus, « começou a percorrer toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades. »
Provavelmente que estas curas ― o espectacular causa sempre admiração e sensação! ― e o ensinamento proposto por Jesus, foram depressa anunciados ao longe e ao perto e por isso mesmo, « seguiram-no grandes multidões, vindas da Galiléia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão », multidões ávidas não só de sensacional, mas também de ensinamentos claros, objectivos, e dados com amor e mansidão, visto que, como diz o salmista, « o Senhor ilumina os olhos dos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos; o Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva e entrava o caminho aos pecadores. »
Foi numa dessas ocasiões de grande afluência, que « ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Rodearam-no os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo », não só para os discípulos que o rodeavam, mas também e sobretudo para aquelas “multidões” que o seguiam :
« Bem-aventurados... »
Mas bem-aventurados quem e porquê?
« Os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus;
os que choram, porque serão consolados;
os humildes, porque possuirão a terra;
os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados;
os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia;
os puros de coração, porque verão a Deus;
os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus;
os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus »

E ainda mais, mais forte...
« Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. »
E para culminar estas bem-aventuranças, Jesus promete e afirma com força aos que o escutam:
« Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa ».
Estas bem-aventuranças são na verdade um autêntico hino ao amor de Deus, à sua misericórdia para connosco. Na verdade são bem-aventurados todos aqueles que colocam as suas vidas e todo o seu ser nas Mãos de Deus; que eles sejam “pobres em espírito”, que eles “chorem” por causa das vicissitudes da vida, que sejam “humildes”, que tenham “fome ou sede de justiça”, os que são “misericordiosos”, os que são “puros de coração”, “os que promovem a paz”, os que sofrem perseguição” e de maneira particular aqueles que por causa de Jesus, são insultados, perseguidos, maltratados, caluniados e, muitas vezes martirizados... E se assim acontece, é porque todos eles amaram, amaram ao ponto de tudo aceitarem por amor de Cristo.
Para melhor o compreendermos, bastará recordar os nomes de tantos santos, muitos dos nossos tempos, que a Igreja elevou às honras dos altares: Santa Teresa de Ávila, S. João da Cruz, S. Francisco Xavier, S. João de Brito, Santo António de Lisboa e, mais perto de nós, Francisco e Jacinta de Fátima, Rita Amada de Jesus e Alexandrina de Balasar. Todos eles sofreram com amor perseguições, calúnias, insultos e o martírio, para dois dos acima citados.
Mas todos eles tinham esta certeza da promessa divina:
« Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa ».
Bem-aventurados todos aqueles que praticam os dois primeiros Mandamentos de Deus: “Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos”.
Não esqueçamos nunca o que dizia a bem-aventurada Madre Teresa de Calcutá: “Nós seremos julgados pelo amor que demos”.
Assim como não devemos esquecer o que S. Paulo afirma na epístola de hoje:
« Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios ; escolheu o que é vil e desprezível, o que nada vale aos olhos do mundo, para reduzir a nada aquilo que vale, a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus. »

Afonso Rocha
Comentário para o 4º Domingo do Tempo Comum, ano A

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A FORÇA DE DEUS

“Foi um inimigo que fez isto”

Escrevo-vos, irmãos bem amados, para que saibais que, desde o dia em que Adão foi criado até ao fim do mundo, o Maligno fará guerra constante aos santos (Ap 13,7)... Contudo, são poucos os que se dão conta de que o saqueador das almas coabita com eles nos seus corpos, muito perto das suas almas. Vivem na tribulação e não há ninguém sobre a terra que os possa reconfortar. Por isso, olham para o céu e aí colocam a sua esperança, contando receber alguma coisa dentro de si próprios. Desta forma, e graças à armadura do Espírito (Ef 6,13), vencerão. Com efeito, é do céu que recebem uma força, que permanece escondida aos olhos da carne. Enquanto procurarem Deus com todo o seu coração, a força de Deus vem secretamente em seu auxílio a todo o momento... É precisamente porque tocam com o dedo na sua fraqueza, porque são incapazes de vencer, que eles solicitam ardentemente a armadura de Deus e, assim revestidos com o equipamento do Espírito para o combate (Ef 6,13), tornam-se vitoriosos...
Sabei, pois, irmão bem amados, que em todos os que prepararam a alma para se tornarem numa terra boa para a semente celeste, o inimigo apressa-se a semear o seu joio... Sabei também que aqueles que não procuram o Senhor com todo o seu coração não são tentados por Satanás de forma tão evidente; é mais às escondidas do que por manhas que ele tenta... afastá-los para longe de Deus.
Mas agora, irmãos, tende coragem e não receeis. Não vos deixeis assustar com imaginações suscitadas pelo inimigo. Na oração, não vos entregueis a uma agitação confusa, multiplicando gritos sem nexo, mas acolhei a graça do Senhor na contrição e no arrependimento... Tende coragem, reconfortai-vos, resisti, preocupai-vos com as vossas almas, perseverai zelosamente na oração... Porque todos os que procuram Deus com verdade receberão uma força divina na sua alma e, recebendo essa unção celeste, todos sentirão em si o gosto e a doçura do mundo que há-de vir. Que a paz do Senhor, aquela que esteve com todos os santos padres e os guardou de todas as tentações, permaneça também convosco.

S. Macário (? - 405), monge no Egipto Homilias espirituais, n.º 51

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

MORRER POR CRISTO

Morrer por Cristo constitui uma honra e uma glória:
São Pedro

O que mais atrai sobre nós a benevolência do Alto é a nossa solicitude para com o próximo. Assim, é justamente esta a disposição que Cristo exige de Pedro: Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes? (Jo 21, 15). Ele respondeu: Sim, Senhor, tu bem sabes que eu te amo (Jo 21, 15). E Jesus lhe diz: Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21, 15).
Por que, deixando os outros apóstolos de lado, Jesus se dirige a Pedro, a respeito deles? É que Pedro era o primeiro entre os apóstolos, o que falava em nome deles, o chefe do seu grupo, tanto que o próprio Paulo vem consultá-lo um dia, e não aos outros. Para demonstrar a Pedro que podia confiar plenamente em que sua negação fora anulada, Jesus lhe dá agora a primazia entre os seus irmãos. Não menciona que o negou, nem o envergonha com o seu passado. “Se tu me amas, diz ele, permanece à frente de teus irmãos; e dá provas, agora, daquele amor apaixonado que sempre demonstraste por mim, com tanta alegria! A vida, que dizias estar pronto a dar em meu favor, eu quero que a dês pelas minhas ovelhas”.
Interrogado uma primeira vez e depois uma segunda, Pedro apela para o testemunho daquele que conhece o segredo dos corações. Interrogado uma terceira vez, ele se perturba, e o temor o domina. Lembra-se de que outrora fizera afirmações solenes, que os acontecimentos haviam desmentido. E é por isso que procura, agora, apoiar-se em Jesus: “Tu conheces tudo, diz ele, tanto o presente quanto o futuro”. Vede como se tornou melhor e mais humilde, como perdeu sua arrogância e seu espírito de contradição! Perturbou-se ao pensamento de que podia ter a impressão de amar, sem amar realmente. “Tanto estava seguro de mim mesmo no passado, pensa ele, como agora me sinto confuso”. Jesus o interroga três vezes, e três vezes lhe dá a mesma ordem: Apascenta as minhas ovelhas. Demonstra assim o apreço que tem pelo cuidado de suas ovelhas, pois faz, de tal cuidado, a maior prova de amor para com ele.
Depois de ter falado a Pedro deste amor, Jesus prediz o martírio que lhe está destinado. Manifesta desse modo toda a confiança que deposita nele. Para nos dar um exemplo de amor e mostrar a melhor forma de amar, diz ele: Quando eras jovem, tu mesmo amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, outros te cingirão e te levarão para onde não queres ir (Jo 21, 18). Era, aliás, o que Pedro tinha querido e desejado outrora; por isso é que Jesus lhe fala assim. Pedro dissera, com efeito: Eu darei a minha vida por ti! (Jo 13, 37). E também: Ainda que eu tenha de morrer contigo, não te negarei! (Mt 26, 35; Mc 14, 31). Jesus acede ao seu desejo. Fala-lhe desse modo não para amedrontá-lo, mas para reanimar seu ardor. Conhece seu amor e sua impetuosidade; pode anunciar-lhe o género de morte que lhe reserva no futuro. Pedro sempre desejara enfrentar perigos por Cristo. “Tem confiança, diz Jesus, teus desejos serão satisfeitos; o que não suportaste em tua mocidade, suportarás na velhice”. E, para chamar a atenção do leitor, o evangelista acrescenta: Jesus disse isso para dar a entender com que morte Pedro iria glorificar a Deus (Jo 21, 19). E esta palavra nos ensina que morrer por Cristo constitui uma honra e uma glória.

São João Crisóstomo, bispo: Homilias sobre o Evangelho de São João;
Homilia 88 (Patrologia Grega, 59, 477-480)